Convém lavarmo-nos, pêlos e sombras, solidão e desgraça, também lavei Ehud no fim algumas vezes, sovacos, coxas, o escuro buraco, sexo, bolotas, Ai Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco? Escondido atrás mas quantas vezes pensado, escondido atrás, todo espremido, humilde mas demolidor de vaidades, impossível ao homem se pensar espirro do divino tendo esse luxo atrás, discurseiras, senado, o colete lustroso dos políticos, o cravo na lapela, o cetim nas mulheres, o olhar envesgado, trejeitos, cabeleiras, mas o buraco ali, pensaste nisso? Ó buraco, estás aí também no teu Senhor? Há muito que se louva o todo espremido. Estás destronado quem sabe, Senhor, em favor desse buraco? EStás me ouvindo? Altares, velas, luzes, lírios, e no topo uma imensa rodela de granito, umas dobras no mármore, um belíssimo ônix, uns arremedos de carne, do cu escultores líricos. E dizem que os doutos que Tua Presença ali é a mais perfeita, que ali é que está o sumo, o samadhi, o grande presunto, o prato.
Hilda Hilst, trecho de "A obscena senhora D". Sobre este livro escreveu Caio Fernando Abreu: "A história - se é que há uma história aqui - é simples: após a morte do amante, Hillé, a Senhora D, se recolhe ao vão da escada, 'um Nada igual ao teu, repensando misérias, tentando escapar, como tu mesmo, contornando um vazio, relembrando', em direção à própria morte. Numa prosa que se dilata e contrai, às vezes estufada, barroca, repleta de cintilâncias, outras se fazendo navalha, corte seco, a linguagem de Hilda Hilst avança sobre as camisas-de-força da sintaxe para desvendar insuspeitados espaços. O resultado é um texto que, fora de nossa literatura, ao lado de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, só encontraria paralelo em Joyce ou Samuel Beckett. Mais além: é vivo."
4 de agosto de 2008
3 de agosto de 2008
Et maintenant, comment voulez-vous que je le regrette,
votre Paris bruyant et noir? Je suis si bien dans mon moulin!
C'est si bien le coin que je cherchais, un petit coin parfumé et chaud, à mille lieues des journaux, des fiacres, du brouillard!... Et que de jolies choses autour de moi! Il y a à peine huit jours que je suis installé, j'ai déjà la tête bourrée d'impressions et de souvenirs... Tenez! pas plus tard qu'hier soir, j'ai assisté à la rentrée des troupeaux dans un mas (une ferme) qui est au bas de la côte, et je vous jure que je ne donnerais pas ce spectacle pour toutes les premières que vous avez eues à Paris cette semaine. Jugez plutôt.
E agora, como sentir falta dessa sua Paris barulhenta e escura? Estou bem no meu moinho! É exatamente o canto que procurei, um cantinho perfumado e quente, a mil léguas dos jornais, dos fiacres, dos nevoeiros!... E quanta coisa bonita ao meu redor! Faz oito dias que me instalei, e já tenho a cabeça cheia de impressões e de lembranças... Veja, ontem à noite assisti ao retorno dos rebanhos para um "mas" (um sítio), que fica abaixo da encosta e juro que não trocaria este espetáculo por todas as premières a que assistiram em Paris esta semana. Julgue você mesmo.
Alphonse Daudet (1840-1897), trecho do romance "Lettres de mon moulin". A tradução é minha. Este post foi só para que pensassem no seguinte: é mesmo necessário morar nas capitais para se escrever uma obra-prima? Claro que a questão de se viver nas cidades grandes passa pelo fato de que nestas metrópoles se concentram as grandes editoras. Em conversa com o Nelson de Oliveira, surgiu a seguinte questão: um gênio morreria despercebido lá no seu interior? Ninguém poderia responder a esta pergunta, mas do mesmo modo que descobriram Van Gogh e Kafka, muitos outros provavelmente estão mortos e bem enterrados até hoje nos porões de sua misantropia.
24 de julho de 2008
To Others than You
Friend by enemy I call you out.
You with a bad coin in your socket,
You my friend there with a winning air
Who palmed the lie on me when you looked
Brassily at my shyest secret,
Enticed with twinkling bits of the eye
Till the sweet tooth of my love bit dry,
Rasped at last, and I stumbled and sucked,
Whom now I conjure to stand as thief
In the memory worked by mirrors,
With unforgettably smiling act,
Quickness of hand in the velvet glove
And my whole heart under your hammer,
Were once such a creature, so gay and frank
A desireless familiar
I never thought to utter or think
While you displaced a truth in the air,
That though I loved them for their faults
As much as for their good,
My friends were enemies on stilts
With their heads in a cunning cloud.
Dylan Thomas (1914-1953).
Friend by enemy I call you out.
You with a bad coin in your socket,
You my friend there with a winning air
Who palmed the lie on me when you looked
Brassily at my shyest secret,
Enticed with twinkling bits of the eye
Till the sweet tooth of my love bit dry,
Rasped at last, and I stumbled and sucked,
Whom now I conjure to stand as thief
In the memory worked by mirrors,
With unforgettably smiling act,
Quickness of hand in the velvet glove
And my whole heart under your hammer,
Were once such a creature, so gay and frank
A desireless familiar
I never thought to utter or think
While you displaced a truth in the air,
That though I loved them for their faults
As much as for their good,
My friends were enemies on stilts
With their heads in a cunning cloud.
Dylan Thomas (1914-1953).
16 de julho de 2008
Essa história de clichê, de lugar-comum, atormenta os escritores, mas na verdade é difícil definir o que vem a ser essa aberração literária. Vejam a frase:
"É o que lhe peço com o coração nas mãos."
Não dá a impressão de ser um baita chavão? Se qualquer escritor hoje colocasse esse trecho em um conto ou em um texto, seria amaldiçoado. Mas não seu autor: Machado de Assis. Talvez que em 1872, ano em que foi publicada, "coração nas mãos" pudesse não ser uma frase batida, o que não creio.
O fato é que não há livro que não tenha suas metáforas duvidosas, suas construções incertas e não há mestre que consiga uma genialidade perene.
"É o que lhe peço com o coração nas mãos."
Não dá a impressão de ser um baita chavão? Se qualquer escritor hoje colocasse esse trecho em um conto ou em um texto, seria amaldiçoado. Mas não seu autor: Machado de Assis. Talvez que em 1872, ano em que foi publicada, "coração nas mãos" pudesse não ser uma frase batida, o que não creio.
O fato é que não há livro que não tenha suas metáforas duvidosas, suas construções incertas e não há mestre que consiga uma genialidade perene.
8 de julho de 2008
7 de julho de 2008
FLIP 2
Alessandro Baricco é um escritor bem pragmático. Quando questionado sobre a utilidade da literatura, disparou que é a de fazer escritores felizes. Encontrei o Carlos Rosa, do meiotom e da Dulcinéia Catadora, que, junto com sua esposa Lúcia, vendia os belos livros artesanais do projeto. Fernando Vallejo tentou polemizar ao revelar que nunca leu Machado de Assis, mas foi em vão, o público não se importou (talvez a maioria ali também jamais tenha lido nada do escritor carioca). Contardo Calligaris, com sua elegância habitual, narrou os jantares com Lacan. Ingo Schulze tentava falar alemão com quem lhe pedia autógrafos - às vezes sorria quando conseguia se comunicar em seu idioma. Neil Gaiman, cuja obra desconheço completamente, autografou durante mais de cinco horas. Maitê Proença, agora escritora, atraía tietes para o bar onde bebericava alguma coisa.
Alessandro Baricco é um escritor bem pragmático. Quando questionado sobre a utilidade da literatura, disparou que é a de fazer escritores felizes. Encontrei o Carlos Rosa, do meiotom e da Dulcinéia Catadora, que, junto com sua esposa Lúcia, vendia os belos livros artesanais do projeto. Fernando Vallejo tentou polemizar ao revelar que nunca leu Machado de Assis, mas foi em vão, o público não se importou (talvez a maioria ali também jamais tenha lido nada do escritor carioca). Contardo Calligaris, com sua elegância habitual, narrou os jantares com Lacan. Ingo Schulze tentava falar alemão com quem lhe pedia autógrafos - às vezes sorria quando conseguia se comunicar em seu idioma. Neil Gaiman, cuja obra desconheço completamente, autografou durante mais de cinco horas. Maitê Proença, agora escritora, atraía tietes para o bar onde bebericava alguma coisa.
6 de julho de 2008
FLIP 1
Em Paraty pude ver em ação a Inês Pedrosa, que partilhou a mesa com Cíntia Moscovich e Zoë Heller. Todos gostaram muito da Pedrosa. Uma multidão de fãs esperando pelo autógrafo da portuguesa, mas eu preferi a Zoë. Também a Cíntia estava muito bem. Inês com seu feminismo e sua luta em favor do aborto não convenceu muito. Zoë foi mais honesta com seu pragmatismo. Chegou a dizer que quando aceitou que adaptassem seu livro para o cinema, só pensou no chque e no quanto poderia ficar sossegada para escrever sua ficção. Já Inês deveria falar mais de sua literatura. Zoë é inteligente e certeira. Fala as coisas certas na hora certa e é uma boa escritora. Vi também o Ingo Schulze na mesma mesa que o Modesto Carone. A simpatia do alemão, sua cultura, sua responsabilidade com o ofício, sua literatura surpreendente deixaram o Carone sem ter muito o que dizer. Ainda bem, pois o brasileiro se mostrou um pouco chato com o público. Ao contrário do Contardo Calligaris, um gentleman, muito alegre, simpático e humilde. Seu romance "O conto do amor" estava sendo lançado por lá. Ainda não li, mas o trouxe para casa e se for bom eu devo comentá-lo em breve. Fui para ver também o Alessandro Baricco e não me decepcionei. O escritor italiano mostrou que encara a literatura de maneira bem diferente da dos brasileiros. A mediação do Manuel da Costa Pinto, entretanto, deixou a desejar. A melhor mesa, de longe, foi a do holandês Cees Nooteboom e do colombiano Fernando Vallejo. O Vallejo mostrou que, além de grande escritor, é um indivíduo furioso, prester a explodir por qualquer coisa. Disparou torpedos pesadíssimos contra a igreja católica, contra nosso presidente, contra a literatura de Cees, contra a língua inglesa, contra seu tradutor brasileiro, contra quase tudo que se pode imaginar.
Em Paraty pude ver em ação a Inês Pedrosa, que partilhou a mesa com Cíntia Moscovich e Zoë Heller. Todos gostaram muito da Pedrosa. Uma multidão de fãs esperando pelo autógrafo da portuguesa, mas eu preferi a Zoë. Também a Cíntia estava muito bem. Inês com seu feminismo e sua luta em favor do aborto não convenceu muito. Zoë foi mais honesta com seu pragmatismo. Chegou a dizer que quando aceitou que adaptassem seu livro para o cinema, só pensou no chque e no quanto poderia ficar sossegada para escrever sua ficção. Já Inês deveria falar mais de sua literatura. Zoë é inteligente e certeira. Fala as coisas certas na hora certa e é uma boa escritora. Vi também o Ingo Schulze na mesma mesa que o Modesto Carone. A simpatia do alemão, sua cultura, sua responsabilidade com o ofício, sua literatura surpreendente deixaram o Carone sem ter muito o que dizer. Ainda bem, pois o brasileiro se mostrou um pouco chato com o público. Ao contrário do Contardo Calligaris, um gentleman, muito alegre, simpático e humilde. Seu romance "O conto do amor" estava sendo lançado por lá. Ainda não li, mas o trouxe para casa e se for bom eu devo comentá-lo em breve. Fui para ver também o Alessandro Baricco e não me decepcionei. O escritor italiano mostrou que encara a literatura de maneira bem diferente da dos brasileiros. A mediação do Manuel da Costa Pinto, entretanto, deixou a desejar. A melhor mesa, de longe, foi a do holandês Cees Nooteboom e do colombiano Fernando Vallejo. O Vallejo mostrou que, além de grande escritor, é um indivíduo furioso, prester a explodir por qualquer coisa. Disparou torpedos pesadíssimos contra a igreja católica, contra nosso presidente, contra a literatura de Cees, contra a língua inglesa, contra seu tradutor brasileiro, contra quase tudo que se pode imaginar.
Assinar:
Postagens (Atom)