13 de julho de 2007

Outro dia fui a um sebo e um sujeito que trabalha lá, que eu até admirava por saber sobre todos os autores que eu buscava, se silenciou quando lhe perguntei se tinha algum livro do Mario Benedetti. Nunca havia ouvido falar no escritor uruguaio, um dos grandes em língua espanhola, aliás um dos grandes e ponto final. Voltei decepcionado para casa e triste, lógico.

Porque, en realidad, la coima siempre existió, el acomodo también, los negociados, ídem. ¿Qué está peor, entonces? Después de mucho exprimirme el cerebro llegué al convencimiento de que lo que está peor es la resignación. Los rebeldes han pasado a ser semi-rebeldes, los semi-rebeldes a resignados. Yo creo que en este luminoso Montevideo, los dos gremios que han progresado más en estos últimos tiempos son los maricas y los resignados. "No se puede hacer nada", dice la gente. Antes sólo daba su coima el que quería conseguir algo ilícito. Vaya e pase. Ahora también da coima el que quiere conseguir algo lícito. Y esto quiere decir relajo total.
Pero la resignación no es toda la verdad. En el principio fue la resignación; despues, el abandono del escrúpulo; más tarde, la coparticipación. Fue un ex resignado quien pronunció la célebre frase: "Si tragan los de arriba, yo tambíen". Naturalmente, el ex resignado tiene una disculpa para su deshonestidad: es la única forma de que los demás no le saquen ventaja. Dice que se vio obligado a entrar en el juego, porque de lo contrario su plata cada vez valía menos y eran más los caminos rectos que se le cerraban. Sigue manteniendo un odio vengativo y latente contra aquellos pioneros que lo obligaron a seguir esa ruta. Quizá sea, después de todo, el más hipócrita, ya que no hace nada por zafarse. Quizá sea también el más ladrón, porque sabe perfectamente que nadie se muere de honestidad.

Não é o tema principal de Benedetti, mas o trecho, retirado do romance "La tregua" é muitíssimo interessante. Outro dia vi um documentário em que um filósofo defendia que o mundo inteiro hoje está resignado. O assunto mais caro de Mario Benedetti é a morte, que neste livro também é personagem principal. Depois vou copiar aqui um outro trecho desta mesma obra, em que o uruguaio encara brilhantemente o tema mais difícil da literatura: o amor.

12 de julho de 2007

A página Amigos do Livro fez uma divulgação do meu romance. Sou muitíssimo grato ao atencioso e prestativo pessoal que mantém o site.

11 de julho de 2007

Em algum ponto escuro acima do Mediterrâneo, quando o avião libertava-se das amarras da terra, Jean lembrou-se de uma estrofe, ensinada há decadas pelo professor de religião da escola:

Primeiro a Pirâmide, que no Egito foi erguida;
Então os Jardins da Babilônia por Amytes construídos;
Terceiro, o Túmulo de Mausolo com afeição e culpa...

Não conseguia lembrar o resto. "Terceiro, o Túmulo de Mausolo com afeição e culpa..." Culpa, culpa... construído, era isso. "Em Éfeso erguido." O que fora construído em Éfeso - ou seria por Éfeso? "Quinto, o Colosso de Rodes, moldado em bronze, em honra ao sol" - lembrou de repente o verso completo, mas não foi muito adiante. Alguma coisa de Júpiter, era isso, e mais alguma coisa no Egito?
De volta a casa, foi à biblioteca e procurou as Sete Maravilhas do Mundo, mas não encontrou nenhuma das que constavam da poesia. Nem as pirâmides? Ou os jardins Suspensos da Babilônia? A enciclopédia dizia: o Coliseu de Roma, as Catacumbas de Alexandria, a Grande Muralha da China, Stonehenge, a Torre Inclinada de Pisa, a Torre de Porcelana de Nanquim, a Mesquita de Santa Sofia em Constantinopla.
Bem, talvez houvesse duas listas diferentes. Ou talvez precisassem atualizar a lista uma vez ou outra, à medida que novas maravilhas eram construídas e as outras desmoronavam. Talvez cada pessoa pudesse fazer a própria lista. Por que não? Para ela, as Catacumbas de Alexandria não pareciam grande coisa. Talvez nem existissem mais. Quanto à Torre de Porcelana de Nanquim, parecia extremamente improvável que qualquer coisa feita de porcelana tivesse sobrevivido. E em caso afirmativo, os soldados da Guarda Vermelha a teriam destruído.

Este trecho aí é porque há poucos dias o Cristo Redentor entrou na lista das maravilhas do mundo. O trecho foi retirado do livro "De frente para o Sol" (Staring at the sun), de Julian Barnes. Também não possuo o pedaço em inglês para inserir aqui. Tenho apenas "O papagaio de Flaubert" (Flaubert's Parrot).

9 de julho de 2007

Entretanto, quando ele está dentro de mim - como ontem à noite - acontece algo de muito estranho. Ele é muito melhor do que qualquer um da minha idade, vem com um sólida e majestosa ereção capaz de se prolongar pelo tempo que quisermos. Há ocasiões em que permanece dentro de mim por toda uma hora e, se eu colocar a mão sobre minha barriga, é possível sentir perfeitamente a ponta rombuda, como um estandarte erguido, atravessando-me a carne. Mas, ao mesmo tempo que ele me preenche toda, ao mesmo tempo que se poderia pensar que a última brecha dentro de mim acabara-se de tapar-se para sempre, enquanto estamos deitados, em silêncio, tenho a sensação de que fui eu quem o arrastou para dentro de minha carne, que sou eu quem o está prendendo ali, que sou eu quem o tem dominado, imobilizado. Se flexiono os músculos dentro de mim, sinto como se estivesse estrangulando alguém. Ele não fala; o sofrimento do prazer faz com que cerre os olhos. As pálpebras são mais delicadas sem os óculos. E até mesmo quando ele provoca o clímax para nós - passado o momento supremo, continuo a retê-lo como se o sentisse estrangulado: quente, grosso, morto, lá dentro.

Trecho do livro "O falecido mundo burguês" (The late bourgeois world, 1966), de Nadine Gordimer. Infelizmente desta vez não possuo o original para inserir também o parágrafo em inglês. Escolhi este pedaço aí justamente para fugir um pouco do estilo de Nadine, para evitar o assunto que a fez vencer o prêmio Nobel: o racismo na África do Sul. A tradução aí foi feita pelo Carlos Sussekind.
Antes de colocar aqui o trecho da Nadine, que prometi, quero falar de uma surpresa que tive: um amigo procurou meu novo livro na Estante Virtual e o encontrou! A 12 reais! Detalhe: a obra ainda não chegou às livrarias... E está num sebo de Porto Alegre. Tenho anotado aqui: enviei dois livros para Porto Alegre, para dois escritores de renome, um que se diz incentivador da nova literatura e outro que está na epígrafe do romance. Qual dos dois VENDEU o livro prum sebo? Eita, os escritores brasileiros estão pobres mesmo, está comprovado! Puxa, eu preferiria que o fulano tivesse DOADO a alguma biblioteca. Ficaria melhor. Tudo bem, nenhum dos dois pediu pra receber o livro, é fato. E presente é presente, a gente faz o que quiser com ele...

7 de julho de 2007

Eu vinha pensando num jeito de dizer isso, quando um comentário da Mônica Mamede veio me incentivar. Sei que vai ser polêmico. Meu romance "As espirais de outubro" narra os últimos dias da brasileira ganhadora do Nobel de literatura, em 2005. Como estou escrevendo uma resenha para o "novo" livro de Orhan Pamuk, "Istambul", tenho pesquisado novamente sobre o prêmio. Todo mundo sabe que há omissões históricas, falhas imperdoáveis. Nem vou citar os estrangeiros, todo mundo tem lá no fundo o seu candidato. Entre os brasileiros, sempre torci pelo Suassuna, acho que ele é o que tem todos os requisitos para ser um vencedor. Além do resgate da cultura de sua terra, escreve como um gênio. Entretanto, duvido que vença porque o problema é que ele é bom demais. Como foram Rosa, Clarice e Machado. Mas agora é que vem a bomba: eu aposto que o brasileiro que vai ganhar o Nobel (e não demorará muito) será o Paulo Coelho. Ele é a cara do prêmio (lá no mesmo nível de Gabriela Mistral e Harold Pinter). Daqui a pouco vou postar um trecho de Nadine Gordimer, para que se lembrem da Flip (eu gostaria de estar lá - alguém me consegue um autógrafo dela?)

6 de julho de 2007

É só porque havia em ti uma caixinha de silêncio. E eu a imaginava envelhecida, de um mofo que impõe respeito e mágica. Toda vez que eu a abria, escutava canção nenhuma e, dessa forma, dançava quieta em teus braços. Sei da ilusão dos instrumentos. Da solidão da voz. Da falta contida em tantas músicas. Mas tudo isso aquela caixinha supria. Ao abri-la, a quantidade de delicadeza impregnada em meus dedos entregava a preciosidade jamais pronunciada. Ao abri-la, nem meus olhos falavam. O silêncio guardado ali, sempre pronto a preencher nossos vazios. Como nos dias em que tocavas Chopin e todas as teclas querendo ser meu corpo.

Do livro Nervuras do silêncio, de Lindsey Rocha, lançado pela 7Letras na coleção Rocinante.