22 de novembro de 2007

Boitempo

Entardece na roça
de modo diferente.
A sombra vem nos cascos,
no mugido da vaca
separada da cria.
O gado é que anoitece
e na luz que a vidraça
da casa fazendeira
derrama no curral
surge multiplicada
sua estátua de sal,
escultura da noite.
Os chifres delimitam
o sono privativo
de cada rês e tecem
de curva em curva a ilha
do sono universal.
No gado é que dormimos
e nele que acordamos.
Amanhece na roça
de modo diferente.
A luz chega no leite,
morno esguicho das tetas,
e o dia é um pasto azul
que o gado reconquista.

Carlos Drummond de Andrade.

8 de novembro de 2007

Vocês conhecem as agendas do PSTU? Calma, calma, este recado não tem absolutamente nenhuma conotação política. Eu compro essas agendas há uns 7 ou 8 anos, porque elas são bonitas, bem-feitas. As páginas são ilustradas com fotos e quadros famosos. Também muita poesia, trechos de músicas, de obras literárias. Ano passado eu comprei a agenda, como todos os anos anteriores, de um militante do partido. Para minha surpresa, ela trazia umas três ou quatro poesias minhas! Então eu consegui entrar em contato com os organizadores da agenda e este ano meus versos ilustram muitas outras páginas. Repito: vale a pena ter uma. Não sou militante do PSTU e de nenhum outro partido. Repartem os dias comigo outros poetas, como Carlos Drummond, Manoel de Barros, Lau Siqueira, Zeh Gustavo e por aí vai a lista.

1 de novembro de 2007

O caminho até o cemitério já era familiar. Junto à sepultura, o marido de Caroline descontrolou-se. Gustave olhava baixarem o caixão. De repente o ataúde ficou preso: a cova era estreita demais. Os coveiros seguraram-no e começaram a sacudi-lo; puxaram de um lado para o outro, sacudiram, deram pancadas com uma pá, usaram pés-de-cabra como alavanca; mas o caixão não se movia. Por fim um deles botou o pé bem em cima do ataúde, exatamente sobre o rosto de Caroline, e desceu-o à força para o túmulo.

Trecho do romance "O papagaio de Flaubert", de Julian Barnes, em tradução de Manoel Paulo Ferreira. O pedaço aí que escolhi fala sobre o enterro da irmã de Gustave Flaubert, Caroline. Flaubert, após a publicação de Madame Bovary em folhetim, sempre tentou mostrar ao mundo que não era autor de um único livro. E não foi mesmo, escreveu no mínimo outras duas obras-primas.

30 de outubro de 2007

Alguém conhece a Eloisa Cartonera? É um projeto argentino bem legal. Catadores de lixo que editam livros. No Brasil há um projeto-irmão, o Dulcinéia Catadora. Já editou livros do Manoel de Barros, do Glauco Mattoso, do Haroldo de Campos e está editando um livro meu também. Dia 30 de novembro estarei junto com a Dulcinéia e a Eloisa no SESC Pompéia em São Paulo, para um lançamento bem legal de vários livros. Quem costuma ver o programa "Entrelinhas", da TV Cultura vai assistir, no próximo domingo, dia 04 de novembro, a uma matéria sobre o projeto Dulcinéia. O programa começa às vinte e uma horas.

29 de outubro de 2007

Hoje saiu uma resenha que escrevi sobre um livro de Leonardo Sciascia no Leia Livro. Sciascia foi um escritor siciliano, que tratava em seus livros ora da Máfia ora do Fascismo. Temas interessantes nas mãos de um grande escritor. Quem não conhece, corra atrás.

18 de setembro de 2007

A gente confunde, às vezes, as insignificâncias do mundo com as ofensas do mundo.

Elio Vittorini, no livro "Conversas na Sicília", em tradução de Lucia Guidicini. Vittorini nasceu na Sicília em 1908 e faleceu em 1966. Juntamente com Italo Calvino fundou a revista de esquerda "Il menabó".

7 de setembro de 2007

Era mais um daqueles dias cinzentos de Milão, porém sem chuva, com aquele céu enigmático que não se sabia ao certo se eram nuvens ou apenas a neblina a encobrir, talvez, o sol. Ou simplesmente a caligem saída das chaminés, dos respiradouros das caldeiras de nafta, das refinarias Coloradi, dos caminhões barulhentos, dos esgotos, dos nauseabundos montes de lixo jogados nos terrenos baldios da periferia, da traquéia dos milhões e milhões - seriam tantos? - aglomerados entre cimento, asfalto e raiva à sua volta.

Trecho do romance "Um amor", do italiano Dino Buzzati (1906-1972), em tradução de Tizziana Giorgini. O livro foi lançado pela Nova Fronteira.