28 de maio de 2008

Eu sabia que alguma coisa específica no livro "Respiração artificial", do Ricardo Piglia havia me incomodado. Então resolvi pescar o livro na estante para relê-lo. E descobri que foi a epígrafe do primeiro capítulo, um trecho maravilhoso do poema "The dry salvages", do T. S. Eliot:

We had the experience but missed the meaning,
and approach to the meaning restores the experience.

Além disso, há um trecho interessante, em que Piglia junta, em um único parágrafo, vários mestres:

No fim, eu escrevera um romance com essa história, usando o tom de As palmeiras selvagens, ou melhor: usando os tons que Faulkner adquire quando traduzido por Borges, com o que, sem querer, o relato ficou parecendo uma versão mais ou menos paródica de Onetti.


O trecho eu retirei da edição da Iluminuras, de 1987, em tradução da Heloisa Jahn. Quem quiser conhecer todos os versos do poema "The dry salvages", aqui.

21 de maio de 2008

E então as formigas vermelhas e as baratas começaram a proliferar-se com especial ferocidade. Alguma coisa encontram nesta seca que as ajuda a se reproduzir, dizem alguns; outros garantem que sempre estiveram por aí, como animais subterrâneos, e que só aparecem de noite; mas chega o momento em que devem sair à superfície para buscar a comida a toda hora, arriscando-se ao sol e às pisadas. Lucio respeita as formigas pela sua vontade de criar seus próprios palácios; em compensação, detesta o oportunismo das baratas, que tomam de assalto qualquer tubulação, caverna, buraco, canal ou amontoado de livros. Mas esse mesmo desprezo o motiva a criá-las e alimentá-las no quarto ao lado, onde joga os livros censurados, pois considera que esse deve ser seu indigno fim. O fogo não lhe parece uma punição adequada; isso dá a um livro oco a utilidade de produzir calor, a notoriedade de se tranformar em luz. O inferno deve ser alguma coisa que consuma lentamente, entre urina e goelas que pulverizem com tenacidade capas, orelhas, fotografias de autores e autoras, com a pose de intelectual de uns e o desejo de beleza de outras. Os bichos terão de regurgitar prêmios, conquistas e, sobretudo, elogios falsos, uma das maiores obras, mostra da enorme qualidade literária, um lugar privilegiado nas letras, pode ingressar no templo dos grandes escritores, sua obra ocupa um lugar de destaque e tantas outras tentativas de empurrar livros sem motor próprio. Imagina com prazer uma barata pondo seus ovinhos cor de café sobre aquela obscura frase de Soledad Artigas em que ela declara que Margarita se sentiu como um cometa que, para além do firmamento, procura pousar no planeta que a acolha como uma amorosa mulher estéril; ou deixando cair seu minúsculo esterco sobre personagens como Raúl Sarabia, que, em vez de morrer com dignidade, como Josep Trovich ou Basualdo Fornes, falece dando lições de história e filosofia e falso amor pelo México, e desejava que esse romance se fechasse abruptamente, desembuchando a incauta barata, fazendo com que ela evacuasse sua linfa amarelenta sobre qualquer um dos diálogos tão perfeitamente elaborados como, se o senhor me permite, doutor Sarabia, devo dizer-lhe, entretanto, que, a despeito do seu peculiar interesse pela senhorita Carrington, o senhor tem, como dever primeiro, a pátria, assim sendo, o senhor deve compreender, e sem dúvida há de convir que... e, assim, a morte do inseto esmagado pareceria uma obra de arte entre tanto vocábulo insosso.

Trecho do romance "O último leitor", de David Toscana, em tradução de Ana Lúcia Pelegrino e Magali Pedro, para a Casa da Palavra. Edição de 2005.

20 de maio de 2008

Amanhã ou depois eu prometo postar aqui uns trechos do David Toscana ou então do Enrique Vila Matas. Hoje eu só quero convidá-los a ler uma matéria minha sobre o novo livro do Deonísio da Silva, que saiu no Observatório da Imprensa.

6 de maio de 2008

Continuò a girare, l'automobile, per un tempo che nessuna lancetta misurò mai. Elizaveta non contò quante volte vide il rettilineo d'arrivo, ma si accorse che a poco a poco quel che Ultimo
aveva cercato spesso di spiegarle, stava succedendo. Sentì ogni curva sciogliersi gradualmente nell'ordine illogico di un unico gesto, e trovò nella propria mente il cerchio che non esisteva se
non per lei. Nel cuore della velocità, trovò la perfezione di un semplice anello. Pensò allora all'infinito caos di ogni vita, e all'arte sopraffina delle cose che sanno pronunciarlo in un'unica
figura, compiuta. E capì cosa ci commuove nei libri, nello sguardo dei bambini e negli alberi solitari, in mezzo alla campagna. Quando si accorse di essere scesa nel segreto di quel disegno,
chiuse gli occhi, vide gli occhi di Ultimo, sorrise. Poi appoggiò una mano sul braccio del ragazzo che guidava. L'automobile rallentò come se si fosse staccata dall'invisibile forza che fin lì l'aveva trascinata. Percorse sulla spinta ancora due curve, che tornarono, in quella antica lentezza, a sembrare curve. Poi, giunta sul rettilineo, la macchina si fermò.


Continuou rodando, o automóvel, por um tempo que nenhum ponteiro jamais mediu. Elizaveta não contou quantas vezes viu a reta de chegada, mas percebeu que, aos poucos, o que Ultimo muitas vezes procurara lhe exolicar agora estava acontecendo. Sentiu cada curva se desmanchar gradualmente na ordem ilógica de um único gesto e encontrou na própria mente o círculo que só existia para ela. No coração da velocidade, encontrou a perfeição de um simples anel. Pensou, então, no caos infinito de toda vida e na arte requintada das coisas que sabem pronunciá-lo numa única figura, completa. E compreendeu o que nos toca nos livros, no olhar das crianças e nas árvores solitárias, no meio do campo. Quando percebeu que havia descido no segredo daquele desenho, fechou os olhos, viu os olhos de Ultimo, sorriu. Depois, apoiou uma das mãos no braço do rapaz que dirigia. O carro desacelerou como se tivesse se despregado da força invisível que o arrastara até ali. Percorreu no embalo mais duas curvas, que voltaram, naquela antiga vagarosidade, a parecer curvas. Depois, ao chegar à reta, o carro parou.

Trecho de "Questa storia" (Esta história), de Alessandro Baricco. A tradução é de Roberta Barni e foi lançada pela Companhia das Letras. O romance conta a história de Ultimo, um sonhador que se apaixona por carros quando criança e persegue, durante a segunda guerra, o desejo de construir um circuito fechado, para que nele jamais seja disputada nenhuma prova.

20 de abril de 2008

All'uomo più imprendibile del Giappone, al padrone di tutto ciò che il mondo riusciva a portare via da quell'isola, Hervé Joncour provò a raccontare chi era. Lo fece nella propria lingua, parlando lentamente, senza sapere con precisione se Hara Kei fosse in grado di capire. Istintivamente rinunciò a qualsiasi prudenza, riferendo senza invenzioni e senza omissioni tutto ciò che era vero, semplicemente. Allineava piccoli particolari e cruciali eventi con voce uguale e gesti appena accennati, mimando l'ipnotica andatura, malinconica e neutrale, di un catalogo di oggetti scampati a un incendio.
Hara Kei ascoltava, senza che l'ombra di un'espressione scomponesse i tratti del suo volto. Teneva gli occhi fissi sulle labbra di Hervé Joncour, come se fossero le ultime righe di una lettera d'addio. Nella stanza era tutto così silenzioso e immobile che parve un evento immane ciò che accadde all'improvviso, e che pure fu un nulla.
D'un tratto,
senza muoversi minimamente,
quella ragazzina,
aprì gli occhi.
Hervé Joncour non smise di parlare ma abbassò istintivamente lo sguardo su di lei e quel che vide, senza smettere di parlare, fu che quegli occhi non avevano un taglio orientale, e che erano puntati, con un'intensità sconcertante, Su di lui: come se fin dall'inizio non avessero fatto altro, da sotto le palpebre. Hervé Joncour girò lo sguardo altrove, con tutta la naturalezza di cui fu capace, cercando di continuare il suo racconto senza che nulla, nella sua voce, apparisse differente. Si interruppe solo quando gli occhi gli caddero sulla tazza di te, posata per terra, davanti a lui. La prese con una mano, la portò alle labbra, e bevve lentamente. Ricominciò a parlare, mentre la posava di nuovo davanti a sé.



Ao homem mais inexpugnável do Japão, ao dono de tudo o que o mundo conseguisse levar daquela ilha, Hervé Joncour tentou contar quem era. Falou em seu próprio idioma, lentamente, sem saber com certeza se Hara Kei podia entender. Instintivamente renunciou a qualquer prudência, informando sem invenções e sem omissões tudo aquilo que era verdadeiro, simplesmente. Alinhava pequenos detalhes e acontecimentos cruciais com voz igual e gestos apenas esboçados, areemedando o hipnótico ritmo, melancólico e neutro, de um catálogo de objetos salvos de um incêndio. Hara Kei escutava, sem que nenhuma sombra de expressão alterasse os traços de seu rosto. Mantinha os olhos fixos nos lábios de Hervé Joncour, como se fossem as últimas linhas de uma carta de adeus. No cômodo tudo estava tão silencioso e imóvel, que pareceu desmedido o que ocorreu de súbito e que, no entanto, foi um nada.
De repente,
sem movimento algum,
a menina
abriu os olhos.
Hervé Joncour não parou de falar, mas baixou instintivamente o olhar para ela, e o que viu, sem parar de falar, foi que aqueles olhos não tinham o corte oriental e estavam apontados, com uma intensidade desconcertante, para ele: como se desde o início não tivessem feito outra coisa, sob as pálpebras. Hervé Joncour virou o olhar para outra parte, com toda a naturalidade de que foi capaz, tentando continuar sua narrativa sem que nada, em sua voz, parecesse diferente. Interrompeu-se só quando seus olhos baixaram para a xícara de chá, no chão, diante dele. Pegou-a com uma das mãos, levou-a aos lábios e bebeu lentamente. Recomeçou a falar, enquanto a punha de novo diante de si.


Trecho do romance "Seta" (Seda), do italiano Alessandro Baricco. Em português a tradução de Léo Schlafman, para a editora Companhia das Letras (2007). Na orelha da versão brasileira: Baricco nasceu em 1958, em Turim, onde mora ainda hoje. Estreou na literatura aos 33 anos, e é considerado um dos principais escritores contemporâneos da Itália. Seda foi traduzido para dezesseis idiomas e virou filme de François Girard.

14 de abril de 2008

Aqui, uma resenha que escrevi sobre o livro "O diário escarlate", do americano Louis Auchincloss, em tradução de Rafael Mantovani, lançado pela editora "A girafa", em 2005.

8 de abril de 2008

Há um personagem do Alphonse Daudet, que anda esquecido aqui no Brasil. É o Tartarin.

O romance "Tartarin de Tarascon" começa assim:

"Ma première visite à Tartarin de Tarascon est restée dans ma vie comme une date inoubliable ; il y a douze ou quinze ans de cela, mais je m’en souviens mieux que d’hier. L’intrépide Tartarin habitait alors, à l’entrée de la ville, la troisième maison à main gauche sur le chemin d’Avignon. Jolie petite villa tarasconnaiseavec jardin devant, balcon derrière, des murs très blancs, des persiennes vertes, et sur le pas de la porte une nichéede petits Savoyards jouant à la marelle ou dormant au bon soleil, la tête sur leurs boîtes à cirage."

Em tradução de Ondina Ferreira:

"A primeira visita que fiz a Tartarin de Tarascon permaneceu na minha vida como data inesquecível; isso aconteceu há cerca de dez ou quinze anos, mas dela me lembro melhor do que do dia de ontem. O intrépido Tartarin morava, então, à entrada da cidade, na terceira casa à esquerda, no caminho de Avinhão. Bonita vivendazinha tarasconesa com jardim na frente, terraço aos fundos, paredes muito brancas, persianas verdes, e, nos degraus à soleira da porta, uma ninhada de pequenos saboianos brincando de amarelinha, ou dormindo ao sol, com a cabeça pousada nas suas caixas de engraxates."