Há escritores que gostam de nocautear. Mal começam uma luta e já tentam acertar um gancho ou um direto, para derrubar de vez o oponente e terminar com a história. É arriscado, porque o lutador se expõe e um pequeno erro pode levá-lo a uma derrota. Outros, mais pacientes, encaixam um jab de vez em quando, minando aos poucos a resistência do adversário. Vai vencendo devagar, a cada golpe e eventualmente pode levar o outro ao chão, o que não é tão importante. O que lhe interessa é a vitória e ele a constrói com calma, meticulosamente.
Rinaldo de Fernandes é o segundo tipo de boxeador. Pelo menos é a conclusão que tiro ao ler seu livro de contos "O professor de piano", lançado pela 7letras, em 2010. Não estou tentando defender que um estilo é melhor do que o outro, são apenas dois jeitos diferentes de contar uma história, ambos com suas características. Rinaldo vai tateando, testando seu leitor, entregando aos poucos a trama, deixando lacunas, dúvidas, vai encaixando um gancho aqui, outro ali.
Suas narrativas curtas seguem o conceito tradicional de conto: o roteiro se prende a curtos intervalos de tempo, as personagens são poucas, as histórias narradas em dez, doze páginas e todas têm início, meio e fim. O que, na verdade, não importa muito, pois o que vale é a poesia presente, o domínio da arte e a convicção de que a obra não é descartável. Rinaldo é, como o apresenta Regina Zilberman, um mestre do conto.
Apesar de o belo e instigante "Beleza" abrir o volume, é em "O professor de piano" que podemos começar a perceber a maestria a que Regina se refere. Em poucos parágrafos ficamos sabendo que há um plano e que só teremos mais dados à medida que formos nos embrenhando pelas páginas. É assim que Rinaldo nos hipnotiza e é assim que somos pegos de surpresa. Uma surpresa atrás da outra.
Não o espanto do nocaute, mas a paciência sobre a qual comentei no início deste texto. Depois, há outro conto, "Ilhado", uma construção perfeita. Nos colocam a par de um casal que frequenta um bar. Ele, habitante de uma ilha, ela sua namorada. E há um freguês em uma mesa próxima, que pretende ser apenas um voyeur. Não deseja se intrometer em nada. Mas é aí que o conceito de observador isento entra em ação. Ninguém é independente, há em tudo uma cumplicidade tácita, entretecida de olhares, gestos, de modo que já desconfiamos que os três se envolverão em alguma intriga.
Há o conto "Oferta", em que uma garota deseja intensamente possuir uma mochila, "Dois buracos para meus olhos, uma ficção venenosa, em que tudo parece ser suspeita, os fatos não são entregues ao leitor e o que é fato pode estar corrompido pelo álcool ou por alguma alucinação. Ainda "O caçador", em que um sujeito invade uma casa e resolve lá morar, dividindo-a com o dono, sem que ele saiba. É um jogo sutil de desencontros.
São onze contos que desafiam o leitor, que nos instigam a seguir para o parágrafo seguinte e ver o que acontece. E o que acontece é que saímos da leitura das quase cem páginas de sustos, de assombros, convictos de que a literatura brasileira contemporânea vai cada vez melhor, mas parece que o grande público ainda não se deu conta disso.
Trecho
Na faculdade, eu havia espalhado, meio idiota, que o silvo do soneto se tratava do pós-moderno. Charme, pra dizer que estava sacando o zunzunzum todo. Tentei te beijar, quando sentamos no barzinho. Você não quis. Falou que é isso. Vamos ser só amigos. Caralho! A pílula da tua indiferença direto na minha goela. Sou como um pneu - adoro o liso. Tudo que é atrito grita-me fundo. Na orelha. No peito. No cu. Que aperta na hora, e bem.
24 de março de 2012
2 de fevereiro de 2012
Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto
Miguel Sanches Neto não tem mais nada a provar a ninguém, já tem o seu lugar garantido no panteão da literatura brasileira. Meu pequeno comentário a respeito destes seus contos, portanto, nada pretende acrescentar à vasta bibliografia que cuida de analisar a obra do escritor paranaense. Se este texto conseguir incentivar um ou outro a ler sua obra, me darei por satisfeito.
Os contos (dezesseis, distribuídos por duzentas e poucas páginas, publicados em 2011) tratam, de um modo bem geral, da infelicidade humana, do baixo valor de mercado do orgulho e da vaidade. São narrativas construídas de acordo com o conceito clássico de conto: início, meio e fim (às vezes surpreendente). Com isso, quero dizer que Miguel Sanches Neto quer contar uma história, mas não tem uma ânsia de contar uma história, ele vai devagar, como diríamos em Minas Gerais, "comendo pelas beiradas". Ele vai tateando, rondando o leitor, como quem não quer nada e, de repente, dá o bote. Para tanto, muitas vezes divide os contos em partes, dá uma volta no passado, prepara o chão.
O título do conto de abertura dá o tom da obra: "Sangue". O leitor que se prepare para muito sangue, mas não aquele dos faroestes, dos filmes atuais de Hollywood, mas o sangue nouvelle vague, o sangue contido, que vai tingindo aos poucos um cenário outrora puro, branco. Há também carne por todo lado. A mulher que não suporta mais o cheiro de sangue e de carne (esse trauma se repetirá em outras partes do livro), as árvores submersas que um artista de uma pequena cidade utiliza para construir suas peças indecentes, a faca que quase é usada para matar uma criança, as memórias de um soldado que romantizava a guerra, o marginal que sonhava em terminar, com o pai, uma casa na árvore e outras histórias que deixam em nós uma impressão de desassossego, de vazio.
Mas eu queria falar especialmente do conto "Vestindo meu avô". Poucas vezes li um texto tão bem concebido, tão bem escrito. Confesso que saí da leitura um pouco deprimido, pensativo. Um garoto que respeitava o avô porque sempre o via com os sapatos bem engraxados. Um avô fugidio e seu cavalo cansado de longas viagens e de repente o menino que vai para a cidade grande, se esquecendo da terra natal, até o dia em que o pai lhe telefona, pedindo que venha ver o avô pela última vez. Aí, para mim, começa a genialidade do conto. O sentimento de proximidade que pai e filho tinham abandonado, é recuperado quando ambos têm de lavar o corpo sem vida do velho, de um velho degradado, que nem usada mais sapatos, mas chinelos de dedo. É uma morte pesada, crua, indigesta, como deveria ser.
"Então você quer ser escritor?" é o conto que fecha o volume e fala de um modo peculiar que a obra é coisa totalmente diferente de autor. Neste texto, Miguel Sanches Neto esmiúça as armadilhas das oficinas literárias, em que os escritores que as ministram sabem da fragilidade do talento de seus pupilos. Mostra um professor de idade, disposto a elogiar seus alunos para garantir a mensalidade e às vezes uma ou outra aventura sexual.
Trecho
Sobre uma mesa velha, no quintal, com o sol nascendo, lavávamos seu corpo. O pai queria fazer alguma coisa. o avô tinha se sujado muito. Não eram propriamente fezes, mas um líquido com sangue e células podres. Fui procurar um terno, havia um no armário. Mas encontrei apenas sapatos velhos.
Voltei para o quintal, ele continuava soltando aquele líquido podre. O pai me mandou pegar a mangueira, eu me lembrei da época em que matávamos um porco, o animal era pelado e lavado antes de ser aberto. A diferença é que agora íamos fechar um corpo. O pai apertava a barriga magra do avô, eu jogava água na mesa. Quando não saiu mais nada, fizemos a barba dele e lavamos de novo o corpo, secamos e o embrulhamos em um lençol branco. Depois de me ajudar a carregá-lo para a cama, o pai ficou no quintal limpando a sujeira, jogando terra seca no chão úmido. Eram oito horas, o sol alto, o comércio estava abrindo. Peguei o carro e saí para providenciar o enterro.
29 de janeiro de 2012
Incompleto movimento, de Alberto Bresciani
O que vou escrever aqui não é novidade. Eu carrego um caderno por onde vou - nele anoto palavras, pensamentos, reflexões, ideias. Tenho rabiscadas observações sobre quase todos os livros que li. Os que valem a pena, lógico. Quando se trata de um livro de versos, registro as palavras que mais aparecem. Nesta antologia do Bresciani, não tenho dúvidas, três palavras se repetem o tempo todo, mas nenhuma como a "pele". Assim é que eu imagino que o escritor nos dá uma dica de como ler sua obra.
Como o autor separa as cento e dez páginas da coletânea em quatro partes: "Dos gestos que transfiguram", "Dos gestos que iluminam", "Dos gestos que atordoam" e "Dos gestos que paralisam", pude ter uma ideia geral da construção que ele arquitetou.
Juntemos o gesto à pele, qual o resultado? Relacionamentos. Quando observamos, nos relacionamos. Como enxergar o que existe, como, como observadores, como interventores, agimos no mundo, modificando-o, interpretando-o? Talvez Bresciani tenha tentado não responder estas questões, mas refletir sobre elas. Abro agora o livro ao acaso, escolho um título de um poema, "Idioma" e lá está:
Nestes signos
a reinscrição do talvez
sopro que não morde
só se escreve no ar
os olhos quase podem ver
e, quem sabe, um dia desvelar
Assim segue o desejo, quase tangível. Um desejo amainado, vez ou outra por um gesto que captura uma esperança de compreensão, de descanso, como nos versos de "Cronologia":
nas mãos, entre os braços
no peito, na plenitude
dos pelos e da pele
à mira
da boca, das garras, dos dentes
Há, para mim, um recado claro: a compreensão está sempre um passo adiante, nossa tarefa é, então, persegui-la. Aí vai o poema "Opostos":
A extensa via obriga
a mãos inversas
Nem a luz é toda
brilha por prismas
Em cada foco
a distância se amplia
Nada nos une
ou decifra.
29 de dezembro de 2011
Sobre "Perdição', de Luiz Vilela
Não escrevo resenhas há três anos e as observações que farei aqui não podem ser consideradas crítica literária, mas somente comentários baseados em minhas leituras. Muito do que vem a seguir pode ser aplicado a qualquer obra de Luiz Vilela, embora eu esteja tratando, especificamente, de Perdição, seu romance recém-lançado.
- Nos textos de Vilela, o narrador não é onipresente - ele sempre sabe de algo porque viu ou porque alguém lhe contou. Ele, portanto, repassa ao leitor a sua mensagem, que, evidente, pode estar corrompida. Isso gera um efeito interessante: nunca se sabe o que é verdade e o que é invenção.
- Os diálogos são o ponto principal da obra de Luiz Vilela. Mas diálogo é algo complicado na literatura. Então, o escritor tem de fazer uma escolha: ou ele transcreve a fala das pessoas, imitando-a em seus menores detalhes como ela é ou considera a fala algo diferente da escrita e por isso adota a norma culta para os diálogos. Luiz Vilela escolhe a segunda opção. Assim, pode parecer estranho que um feirante utilize o pretérito maisque-perfeito, mas não é, pois o diálogo é somente uma representação escrita do que foi dito oralmente, de uma outra maneira, mas com o mesmo significado. Como o narrador não é onipresente, a "transcrição" dos diálogos não precisa ser fidedigna. E mesmo se em alguns casos ele está presente durante o diálogo, não é neste momento que ele passa para o papel o que ouviu.
- A força e a precisão dos diálogos está na voz própria de cada personagem - um padre tem seus cacoetes linguísticos, um pescador idem.
- Para dar um caráter informal e também para amenizar e ao mesmo tempo aumentar a tensão, há piadas, muitas piadas e também ditos populares. De amenidade em amenidade, o leitor prende a respiração, se prepara para a fisgada, pois sabe que a qualquer instante a conversa pode tomar um rumo inesperado.
- A história principal é simples e curta: um pescador se torna pastor, vai para a capital, ganha muito dinheiro com os fiéis e se crê acima de tudo, poderoso. Leva um tombo e se decepciona com o mundo. Só que não se pode escrever 400 páginas sobre isso. Daí que o livro traz muitas personagens secundárias, muitas histórias paralelas.
- Um clássico.
- Nos textos de Vilela, o narrador não é onipresente - ele sempre sabe de algo porque viu ou porque alguém lhe contou. Ele, portanto, repassa ao leitor a sua mensagem, que, evidente, pode estar corrompida. Isso gera um efeito interessante: nunca se sabe o que é verdade e o que é invenção.
- Os diálogos são o ponto principal da obra de Luiz Vilela. Mas diálogo é algo complicado na literatura. Então, o escritor tem de fazer uma escolha: ou ele transcreve a fala das pessoas, imitando-a em seus menores detalhes como ela é ou considera a fala algo diferente da escrita e por isso adota a norma culta para os diálogos. Luiz Vilela escolhe a segunda opção. Assim, pode parecer estranho que um feirante utilize o pretérito maisque-perfeito, mas não é, pois o diálogo é somente uma representação escrita do que foi dito oralmente, de uma outra maneira, mas com o mesmo significado. Como o narrador não é onipresente, a "transcrição" dos diálogos não precisa ser fidedigna. E mesmo se em alguns casos ele está presente durante o diálogo, não é neste momento que ele passa para o papel o que ouviu.
- A força e a precisão dos diálogos está na voz própria de cada personagem - um padre tem seus cacoetes linguísticos, um pescador idem.
- Para dar um caráter informal e também para amenizar e ao mesmo tempo aumentar a tensão, há piadas, muitas piadas e também ditos populares. De amenidade em amenidade, o leitor prende a respiração, se prepara para a fisgada, pois sabe que a qualquer instante a conversa pode tomar um rumo inesperado.
- A história principal é simples e curta: um pescador se torna pastor, vai para a capital, ganha muito dinheiro com os fiéis e se crê acima de tudo, poderoso. Leva um tombo e se decepciona com o mundo. Só que não se pode escrever 400 páginas sobre isso. Daí que o livro traz muitas personagens secundárias, muitas histórias paralelas.
- Um clássico.
14 de novembro de 2011
O sol nas feridas
Onde estava Deus,
quando Hitler avançou
com seus coturnos, suas bombas
seus campos de concentração
sobre toda a humanidade?
Em outro poema, "Ad nauseam", ainda sobre o mesmo tema das religiões:
Quando alguém vem falar de Deus
dou-lhe as costas
e abro um livro.
Mas não é somente denúncia, é também recordação. A sua Cataguases, sempre mítica e inalcançável em sua pequenas de província também está neste livro:
Quando nasci, uma parteira,
dessas que nos inauguram
na febre dos dias, disse:
Vai, menino! ser alguém no mundo,
e saia de Cataguases
para não ficares menor que ela.
Ao falar de si, de suas provações, de suas dores, Cagiano é mais incisivo, como no poema "Despedida":
No agosto em que meu pai morreu
a vida tornou-se uma pátria incompreensível
e o mundo um albergue de inverdades.
No leito em que dormitavam com ele
todas suas dores e
falhavam as energias
eu depositava décadas de silêncios
e olhares mudos.
Aquele que encarar os mais de sessenta poemas pode ter certeza de que não sairá impune da empreitada. "O sol nas feridas" é para corajosos, para esses leitores cada vez mais raros.
25 de outubro de 2011
As certezas e as palavras, Carlos Henrique Schroeder
Os dezenove contos deste livro de Schroeder tratam da única certeza que todos temos: a de estarmos sós. Assim, os relacionamentos não funcionam, nenhum tipo deles, pois o homem parece sempre em busca de algo que não poderá ter jamais. Esse sentimento de impotência é muito bem retratado na literatura de Schroeder, muito por causa de um lirismo às vezes impertinente, que surge quase por acaso em um parágrafo ou outro.
E há também a violência, o despudor. O maniqueísmo não tem mais lugar no mundo de hoje, “meus heróis morreram de overdose”, cantaria Cazuza. “A mão que afaga é a mesma que apedreja”, sentenciaria Augusto dos Anjos. Mas essa violência nunca é gratuita, é uma face da solidão e Schroeder sabe disso, essa Geração zero zero, à qual pertence, sabe disso.
Ao mesmo tempo, o leitor perceberá que não há explicação para nada. Há a tentativa de explicação – as palavras, que, se chegam até o homem, não o humanizam. A muleta das palavras, como diz o próprio autor em uma das epígrafes do livro. Uma muleta capenga, que não ajeita o passo de ninguém, apenas ampara, de uma maneira limitada, mas eficiente. A muleta necessária, mas não suficiente.
Há vários contos que me agradam muito, como “As certezas e as palavras”, em que uma das personagens é viciada na palavra “opróbio” e fica criando textos em cima dela, exercitando a sua própria solidão. Ou então “O tempo que resta”, sobre uma rodovia que tira vidas, um conto melancólico, em que nada parece acontecer, como se todo o texto fosse apenas a descrição de uma fome e de um medo, um medo comum a todos, um medo alimentado pela certeza da solidão e da morte. Gosto também do erotismo romântico do conto “Não diga noite”, em que a imagem se torna mais importante do que o sentimento, ou então que o sentimento só pode ser compreendido pela imagem. O que faz todo o sentido, pois atravessamos uma época em que tudo nos chega primeiramente pela visão. Outro dia comecei um texto me perguntando sobre a tarefa do escritor nos dias de hoje, em que, no câmbio cultural, precisamos de mil palavras para comprar uma imagem. Schroeder sabe disso, ele sabe que a palavra não muda mais nada, que a palavra está em desuso, que a palavra não chega a mais ninguém, porque os homens estão caminhando para seu destino de máquinas (novamente parafraseio uma epigrafe de “A certeza e as palavras”).
E os contos têm muitas citações, muitas homenagens, mas elas nunca parecem excessivas, pois fazem parte do contexto, estão ali para ajudar o roteiro. Além disso, sabemos que o leitor não está acostumado a ler Paul Auster, Maurice Blanchot, Alan Pauls ou Dylan Thomas, o que significa que as passagens escolhidas por Carlos Henrique Schroeder têm a função de apresentar estes autores, de fazer com que o leitor se apaixone por estes grandes pensadores, que o leitor Para contrabalançar, há muitas menções pops, principalmente pinçadas do rock. Legião Urbana, Joy Division e assim por diante, o que nos deixa, nós que estamos chegando aos quarenta, mais à vontade. Ouvir Joy Division hoje ainda é possível. Gravar Joy Division e The National num mesmo pen drive é possível.
Eu recomendo este livro porque é bom, é fruto de um autor maduro e quem ler os contos que foram reunidos nesta obra pode ter a certeza que passará bons momentos em companhia de uma literatura forte, que não deixa e nem quer deixar nada a dever a nada ou a ninguém.
15 de outubro de 2011
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