17 de março de 2006

Inquietações ancestrais

Com 'A cidade devolvida', Whisner Fraga traz novo alento à prosa brasileira

Ronaldo Cagiano

Desde sua estréia com Seres e sombras (1999), seguido pelo premiado Coreografia dos danados (2002), o contista Whisner Fraga vem dando continuidade a um projeto de rastreamento das angústias existenciais. Os contos recentes de A cidade devolvida (Ed. 7Letras, Rio, 104 págs. 2005, R$ 24) chamam a atenção para esse jovem autor, engenheiro e professor, mineiro de Ituiutaba, vivendo atualmente no interior de São Paulo.
Em seu novo trabalho, Fraga aprofunda de maneira radical, tanto nos temas quanto na forma, as inquietações ancestrais, projeções dos desertos interiores de seus personagens. Deparamo-nos com protagonistas vivendo situações-limite, gente que vaga entre as solidões urbanas, os fracassos individuais, a inviabilidade dos relacionamentos desgastados, os dilemas frente às impossibilidades materiais e afetivas ou às insolúveis dores espirituais.
O conto que dá título ao livro, por exemplo, é uma relato pungente de um indivíduo estrangeiro em sua própria geografia, incapaz de localizar-se no seu território físico, porque perdido em seus labirintos psicológicos, sem um fio de Ariadne que o reconduza à realidade. Acuado pela sua própria vida, não dá mais conta de ultrapassar a simples linha divisória que traçou dentro de sua cidade. Tudo perdeu o sentido e ele se torna um estranho no ninho social, um ser que renuncia à sociabilidade e vive, intensamente, seu processo de auto-reclusão no limiar da loucura.
Esses contos metaforizam a própria vida contemporânea, seja na urbis ou nos minúsculos mas vulcânicos escaninhos domésticos, onde ressoam nossas fraquezas. As vísceras expostas da solidão humana, o individualismo, os desajustes sociais, a inadaptabilidade aos fetiches do consumismo, os conflitos familiares e os fracassos coletivos são tratados pelo autor com toda sua carga de tensão.
Há uma verdadeira catarse, na tentativa de exorcizar fantasmas pessoais e soltar o grito submerso de uma geração desiludida, que perdeu seus referenciais humanos e estéticos e não tem mais por que lutar. O vai-e-vem de emoções e desencontros perceptíveis em cada conto retrata uma ambientação claustrofóbica. Mas nem por isso o autor deixa se seduzir por uma linguagem escatológica e, paradoxalmente, traduz os condicionamentos e a secura do caos moderno mitigando a sua confecção literária com a necessária poesia. Não aquela que é fruto de obviedades líricas e concessões sentimentais, mas a que nasce do imprevisível, como uma rosa que brota, solitária, num pântano.
O que reverbera o grito do personagem - ''e a cidade? a cidade? a cidade? confusa geografia a me cuspir'' - é uma denúncia de labirintos reais ou projeções delirantes de um ser deslocado, atmosfera recorrente em quase todos os contos, porque são histórias de inadaptabilidade, isolamento, insularidade, solidão e aspereza.
O autor capta os dramas individuais e coletivos, desnudando as asperezas do cotidiano. E, com isso, cutuca as feridas, dá um soco no estômago e mergulha num universo dialético, o que provoca um susto no leitor e nos instiga a um questionamento sobre a nossa condição.
A linguagem agreste, não linear, entremeada de fragmentos, recortada de alusões e citações, interrompida pelo fluxo de consciência/ monólogo interior, resulta de uma fina artesania e reproduz com fidelidade não só a destreza e a versatilidade narrativa do autor, mas acima de tudo o desmantelamento emocional, o desvario e o deslugar de seus personagens.
Antenado com as emergências de seu tempo e as demandas da literatura atual, Whisner Fraga consolida seu processo criativo e se insere no rol dos autores que trazem um novo alento à prosa brasileira.


Jornal do Brasil, 17 de março de 2006.

3 comentários:

Claudio Eugenio Luz disse...

Meu caro, eu até imprimi esse artigo para ler com mais acuidade. E, como foi a sessão na Fnac?

hábraços

claudio

Renata Miloni disse...

Whisner, estou sem dinheiro para comprar teu livro, mas vou passar na FNAC para te dar um abraço. :-)
Nos vemos lá.
Beijos!

whisner disse...

oi claudio. a fnac foi legal sim, apesar de ter ido pouca gente. quem apareceu valeu pela noite. e vc, melhorou?