8 de agosto de 2009

Hócus-Pócus



As capas dos livros que comento aqui podem, às vezes, parecer estranhas. De fato talvez o sejam mesmo. Há uma explicação: eu mesmo as escaneio e embora o faça com muito carinho, não tenho muita paciência para retoques. O máximo que faço é diminuir o tamanho do arquivo para que não fique muito pesado na página.
Dito isto, vamos a Kurt Vonnegut: nasceu em 1922 em Indianápolis, nos Estados Unidos e morreu em 2007, em Nova Iorque, cidade onde morava desde 1970. Foi formado em Química e Antropologia e serviu na infantaria durante a Segunda Guerra Mundial. Provavelmente sua obra mais conhecida aqui no Brasil seja Matadouro 5 (Slaughterhouse-Five) e acho que por causa deste seu romance, ele é taxado de escritor de ficção-científica. O fato é que este "Hócus Pócus" é um livro e tanto e não tem nada de ficção-científica. Digo até com um certo preconceito, porque os livros de ficção se preocupam mais com a história e mais ainda com as ideias mirabolantes que devem fazer sentido e ter um embasamento teórico do que com a linguagem. Ray Bradbury tentou mudar isso trazendo lirismo para o estilo, mas ele já estava estigmatizado.
Hócus pócus é uma expressão que significa algo como truque ou fraude. Como chegou até aí ninguém sabe, porque em termos linguísticos, Hócus pócus não significa nada. Tem um jeitão de latim, mas é besteira: o próprio termo é uma fraude.
Kurt Vonnegut fala neste seu romance de um tema que sempre o perturbou: a guerra. E a guerra está presente o tempo todo, ora como realidade, quando o personagem principal do livro, o professor Eugene Debs Hartke, que é apresentado pelo autor logo no primeiro parágrafo do romance, resolve contar as pessoas que matou na Guerra do Vietnã, ora como uma inquietante sombra, que é o caso de um presídio gerenciado por japoneses que está sempre a um passo de uma rebelião.
A história: o professor Hartke se torna professor por um acaso - mandado para o exército pelo pai desejoso de um filho de sucesso, vai para West Point e depois para a guerra. Feito o que tinha de ser feito, o soldado retorna para os Estados Unidos sem saber o que será de seu futuro, até que um acaso o faz trombar com seu antigo oficial comandante, que então era diretor de um colégio e precisava de um professor de física.
Um rio separa o Colégio Tarkington e um presídio de segurança máxima com fins lucrativos gerenciado por japoneses. Era uma época em que os americanos começaram a preferir produtos vindos da terra do sol nascente. O Colégio Tarkington é uma dessas escolas para crianças ricas com problemas de aprendizagem.
Mulherengo, Eugene começa a sair com a esposa do diretor. Isso não poderia resultar em boa coisa. Colocam uma menina com um gravador escondido para seguir o professor por toda a escola. Uma maneira eficiente de conseguirem provas para dar um jeito no professor Hartke. Sem emprego e um pouco desesperado, consegue ficar amigo do diretor do presídio e começa a lecionar lá. Como ele é meio maluco, os prisioneiros se identificam com ele e adotam-no como um mentor, o que complica a sua vida, já que quando acontece o motim, ele é acusado de ser o guia dos presos. Com tuberculose e na cadeia, Eugene espera sobreviver neste estranho país que o recebeu de volta.
A qualidade da literatura de Vonnegut está justamente nesta crítica ao jeito americano de ser e na linguagem crua, extremamente crua e ácida.
Para encerrar, eu acho essa capa da Rocco perfeita, a metáfora de uma sociedade que já não funciona de forma correta há muito tempo.

Trecho de Hócus Pócus

Acho que William Shakespeare foi o homem mais sábio que existiu. Mas, para ser franco, isso não é grande coisa. Somos animais de uma vaidade impossível, e na verdade burros de doer. Pergunte a qualquer professor. Nem precisa perguntar a um professor. Pergunte a qualquer um. Cães e gatos são mais espertos do que nós.
Se eu digo que os Curadores do Colégio Tarkington eram Burros, e que as pessoas que nos meteram na Guerra do Vietnã eram burras, espero que fique claro ser eu mesmo o maior Burro de todos. Olhe aonde vim parar agora, e como dei duro só para chegar aqui, e não a outro lugar. Bingo!
E se acho que meu pai era uma besta quadrada e minha mãe era uma besta quadrada, o que posso eu ser se não outra besta quadrada? Pergunte aos meus filhos, legítimos ou não. Eles sabem.

(Tradução de Rubens Figueiredo para a Rocco, edição de 1993).


O trecho em inglês:

I think William Shakespeare was the wisest human being I ever heard of. To be perfectly frank, though, tht's not saying much. We are impossibly conceited animals, and actually dumb as heck. Ask any teacher. You don't even have to ask a teacher. Ask anybody. Dogs and cats are smarter than we are.
If I say that the Trustees of Tarkington College were dummies, and that the people who got us involved in the Vietnam War were dummies, I hope it is understood that I consider myself the biggest dummy of all. Look at where I am now, and how hard I worked to get here and nowhere else. Bingo!
And if I feel that my father was a horse's fundament and my mother was a horse's fundament, what can I be but another horse's fundament? Ask my kids, both legitimate and illegitimate. They know.

Um comentário:

Thomaz Ribeiro disse...

A literatura americana sempre me surpreende, capaz de produzir obras e autores memoráveis, mas também capaz de apresentar obras dignas de esquecimento. Claro não é o caso da obra em questão. As sutilezas e metáforas utilizadas em determinadas obras nos mostram que nem sempre a "grama do vizinho é mais verde". Você está realizando um préstimo à blogosfera ao nos mostrar tão boa leitura.
Abraços.