Lançado aqui no Brasil ano passado, de António Lobo Antunes, "Ontem não te vi em Babilónia", que foi resenhado no Rascunho deste mês. Cá tenho "Eu dei-de amar uma pedra" e "Boa tarde às coisas aqui em baixo". Sobre este último, achei interessante o modo como o autor encontrou o título do romance:
Larbaud conservó enteras su lucidez y su memoria, pero cayó en una confusión total del lenguaje, carente de organización sintáctica, reducida a sustantivos o a infinitivos aislados, reducido a un mutismo inquietante que un día, de pronto, ante la sorpresa de los amigos que habían ido a visitarle, rompió con esta frase:
- Bonsoir les choses d'ici bas.
Buenas tardes a las cosas de aquí abajo? Una frase intraducible.
(Enrique Vila-Matas, Bartleby y Compañia).
O engraçado é que temos dois irônicos - Enrique Vila-Matas, que traduziu uma frase que acabou de sentenciar intraduzível e depois Lobo Antunes que a traduziu ainda outra vez para a língua portuguesa.
Estou lendo no momento "Conhecimento do Inferno". O Rascunho traz uma resenha da obra.
Fui até o quarto e peguei no criado os livros que ando ou andei lendo ultimamente: Los años con Laura Días, do Carlos Fuentes, já me preparando para sua vinda para a Flip, Tolo, morto, bastardo e invisível, do Juan José Millás, Erro e fracasso na escola, alternativas teóricas e práticas, antologia organizada por Juliio Groppa Aquino, Poesia (1956 - 1978), de Pedro Tamen, Árabe coloquial com caracteres ocidentais sem mestre, de Chafic Elia Said, O hóspede perplexo, de Guy Corrêa, Putas assassinas, de Roberto Bolaño e assim por diante. Recomendo todos, porque de todos gostei ou estou gostando.
E em breve dou mais notícias sobre o lançamento do meu novo livro de contos.
4 de abril de 2009
22 de março de 2009
ABISMO 2
8 de março de 2009
ABISMO
A capa do meu sexto livro já está pronta. Quem quiser dar uma conferida, vá até ao site da Editora Ficções.
6 de março de 2009
O ruído discreto mas perfeitamente audível, persistente, sorna, acompanhou-o a noite inteira, como já o acompanhara nas anteriores, como o escoltaria todas as noites em que ele deliberasse fazer serão.
Os ratos devoravam, no forro dos soalhos, dos tectos, das paredes, por entre as prateleiras cevadas de livros e de papéis, a carcaça do velho edifício e o seu venerável recheio. De dia ninguém os escutava. A voz poderosa do funcionalismo que ocupava o casarão antigo abafava todas as demais vozes, todos os rumores. O próprio público que se dirigia aos guichets, à busca de informações, ou tentava introduzir-se nas salas para tratar dos assuntos que na repartição tinham o seu expediente, fazia-o com respeito, com timidez, em fala apagada, submissa, para não dar motivo à fácil irritação dos funcionários, sempre prenhe de desastrosas consequências para os implorantes. Durante as breves horas catalogadas como "horas de trabalho", reinava, de facto, ali, essa entidade soberana - cujas decisões instituem a lei, cujo arbítrio substitui a justiça, cuja inércia é o melhor escudo contra as mutações perigosas da condição social, da sociedade e dos regimes - que constitui a grande, espraiada família do funcionalismo público.
Os ratos, intimidados pela presença dos senhores do edifício, pelo falatório, pelo ranger dos passos sobre o soalho decrépito, não ousavam chamar sobre a sua faina clandestina e corrosiva a atenção de quem lhes não convinha para inimigo. E aproveitavam essas curtas horas de humana actividade para fruir um merecido repouso. Desse modo, a soberania da velha casa se dividia, em boa paz, entre os funcionários e os ratos.
Parágrafos iniciais do conto "A história de Venâncio, segundo-oficial", que fala da desastrosa luta entre um funcionalismo ineficiente e uma manada de ratos bastante disciplinada. Foi publicada no livro "Carnaval e outros contos" (1958), do português Joaquim Paço D'Arcos (1908 - 1979).
Os ratos devoravam, no forro dos soalhos, dos tectos, das paredes, por entre as prateleiras cevadas de livros e de papéis, a carcaça do velho edifício e o seu venerável recheio. De dia ninguém os escutava. A voz poderosa do funcionalismo que ocupava o casarão antigo abafava todas as demais vozes, todos os rumores. O próprio público que se dirigia aos guichets, à busca de informações, ou tentava introduzir-se nas salas para tratar dos assuntos que na repartição tinham o seu expediente, fazia-o com respeito, com timidez, em fala apagada, submissa, para não dar motivo à fácil irritação dos funcionários, sempre prenhe de desastrosas consequências para os implorantes. Durante as breves horas catalogadas como "horas de trabalho", reinava, de facto, ali, essa entidade soberana - cujas decisões instituem a lei, cujo arbítrio substitui a justiça, cuja inércia é o melhor escudo contra as mutações perigosas da condição social, da sociedade e dos regimes - que constitui a grande, espraiada família do funcionalismo público.
Os ratos, intimidados pela presença dos senhores do edifício, pelo falatório, pelo ranger dos passos sobre o soalho decrépito, não ousavam chamar sobre a sua faina clandestina e corrosiva a atenção de quem lhes não convinha para inimigo. E aproveitavam essas curtas horas de humana actividade para fruir um merecido repouso. Desse modo, a soberania da velha casa se dividia, em boa paz, entre os funcionários e os ratos.
Parágrafos iniciais do conto "A história de Venâncio, segundo-oficial", que fala da desastrosa luta entre um funcionalismo ineficiente e uma manada de ratos bastante disciplinada. Foi publicada no livro "Carnaval e outros contos" (1958), do português Joaquim Paço D'Arcos (1908 - 1979).
27 de fevereiro de 2009
Tradução
Estou tentando me acostumar com o novo horário de trabalho. Lendo "Humano, demasiado humano", do Nietzsche, recordei-me que vinha traduzindo "O estrangeiro", do Camus e sempre desistindo. Não porque não seja possível transpor qualquer obra para outra língua, é que nenhuma tradução poderá vencer as inúmeras particularidades de cada idioma.
5. Má compreensão do sonho. - Nas épocas de cultura tosca e primordial, o homem acreditava conhecer no sonho um segundo mundo real; eis a origem de toda metafísica. Sem o sonho, não teríamos achado motivo para uma divisão do mundo. Também a decomposição em corpo e alma se relaciona à antiquíssima concepção do sonho, e igualmente a suposição de um simulacro corporal da alma, portanto a origem de toda crença nos espíritos e também, provavelmente, da crença nos deuses: "Os mortos continuam vivendo, porque aparecem em sonho aos vivos": assim se raciocinava outrora, durante muitos milênios.
A tradução e a nota a seguir é de Paulo César de Souza:
"a suposição de um simulacro corporal da alma": die Annahme eines Seelenscheinleibes. A primeira palavra (do verbo annehmen, "aceitar, supor") é geralmente traduzida por "suposição" ou "hipótese"; mas a segunda, cunhada por Nietzsche, oferece alguma dificuldade, como atestam as diferentes soluções dos tradutores: "a hipótese de um exterior corpóreo para a alma", la creencia en una envoltura aparente del alma, l'ammissione di una forma corporea dell'anima, la croyance à une enveloppe apparente de l'âme, l'hypothèse d'un simulacre corporel de l'âme, the postulation of a life of the soul, the assumption of a spiritual apparition, the assumption that the soul can appear in bodily form.
Destaco a seguinte palavra: soluções. Sim, a tradução é um grande problema e acredito que sem solução razoável. Mais alguns comentários: Machado de Assis foi um tradutor medíocre. Monteiro Lobato também. O primeiro porque só conhecia bem o francês, o que o levava a traduzir para o português autores de língua inglesa a partir da versão francesa. O segundo porque não sabia mesmo traduzir. Para transpor uma obra para outro idioma, é preciso conhecer várias outras línguas, como fica implíticio no comentário do Paulo César. Há algum tempo fiz uma observação que melindrou um crítico, mas continuo pensando da mesma maneira (se não mais radicalmente): para se resenhar qualquer livro, é preciso conhecer também a versão original. Para se fazer um elogio superficial da obra de um compadre para algum desses suplementos de sábado, não é necessário nem que se domine o português - para revisar textos, os jornais dispõem de bons estagiários.
5. Má compreensão do sonho. - Nas épocas de cultura tosca e primordial, o homem acreditava conhecer no sonho um segundo mundo real; eis a origem de toda metafísica. Sem o sonho, não teríamos achado motivo para uma divisão do mundo. Também a decomposição em corpo e alma se relaciona à antiquíssima concepção do sonho, e igualmente a suposição de um simulacro corporal da alma, portanto a origem de toda crença nos espíritos e também, provavelmente, da crença nos deuses: "Os mortos continuam vivendo, porque aparecem em sonho aos vivos": assim se raciocinava outrora, durante muitos milênios.
A tradução e a nota a seguir é de Paulo César de Souza:
"a suposição de um simulacro corporal da alma": die Annahme eines Seelenscheinleibes. A primeira palavra (do verbo annehmen, "aceitar, supor") é geralmente traduzida por "suposição" ou "hipótese"; mas a segunda, cunhada por Nietzsche, oferece alguma dificuldade, como atestam as diferentes soluções dos tradutores: "a hipótese de um exterior corpóreo para a alma", la creencia en una envoltura aparente del alma, l'ammissione di una forma corporea dell'anima, la croyance à une enveloppe apparente de l'âme, l'hypothèse d'un simulacre corporel de l'âme, the postulation of a life of the soul, the assumption of a spiritual apparition, the assumption that the soul can appear in bodily form.
Destaco a seguinte palavra: soluções. Sim, a tradução é um grande problema e acredito que sem solução razoável. Mais alguns comentários: Machado de Assis foi um tradutor medíocre. Monteiro Lobato também. O primeiro porque só conhecia bem o francês, o que o levava a traduzir para o português autores de língua inglesa a partir da versão francesa. O segundo porque não sabia mesmo traduzir. Para transpor uma obra para outro idioma, é preciso conhecer várias outras línguas, como fica implíticio no comentário do Paulo César. Há algum tempo fiz uma observação que melindrou um crítico, mas continuo pensando da mesma maneira (se não mais radicalmente): para se resenhar qualquer livro, é preciso conhecer também a versão original. Para se fazer um elogio superficial da obra de um compadre para algum desses suplementos de sábado, não é necessário nem que se domine o português - para revisar textos, os jornais dispõem de bons estagiários.
6 de fevereiro de 2009
Philip Roth
I lauched into my speech. "Hello-Brenda-Brenda-you-don't-know-me-that-is-you-don't-know-my-name-but-I-held-your-glasses-for-you-this-afternoon-at-the-club... You-asked-me-to-I'm-not-a-member-my-cousin-Doris-is-Doris-Klugman-I-asked-who-you-are..." I breathed, gave her a chance to speak, and then went ahead and answered the silence on the other end. "Doris? She's the one who's always reading War and Peace. That's how I know it's the summer, when Doris is reading War and Peace." Brenda didn't laugh; right from the start she was a practical girl.
"What's your name?" she said.
"Neil Klugman. I held your glasses at the board, remember?"
She answered me with a question of her own, one, I'm sure, that is embarassment to both the homely and the fair. "What do you look like?"
"I'm... dark."
"Are you a Negro?"
"No," I said.
"What do you look like?"
"May I come see you tonight and show you?"
"That's nice," she laughed. "I'm playing tennis tonight."
"I thought you were driving golf balls."
"I drove them already."
"How about after tennis?"
"I'll be sweaty after," Brenda said.
It was not to warn me to clothespin my nose and run in the opposite direction; it was a fact, it apparently didn't bother Brenda, but she wanted it recorded.
"I don't mind," I said, and hoped by my tone to earn a niche somewhere between the squeamish and the grubby. "Can I pick you up?"
She did not answer a minute; I heard her muttering, "Doris Klugman, Doris Klugman..." Then she said, "Yes, Briarpath Hills, eight-fifteen."
"I'll be driving a -" I hung back with the ear, "a tan Plymouth. So you'll know me. How wil I know you?" I said with a sly, awful laugh.
"I'll be sweating," she said and hung up.
Trecho do conto "Goodbye Columbus", de Philip Roth, em que os jovens Neil Klugman e Brenda Patimkn iniciam um inquietante relacionamento guiado pela curiosidade sexual e pelas perdas.
"What's your name?" she said.
"Neil Klugman. I held your glasses at the board, remember?"
She answered me with a question of her own, one, I'm sure, that is embarassment to both the homely and the fair. "What do you look like?"
"I'm... dark."
"Are you a Negro?"
"No," I said.
"What do you look like?"
"May I come see you tonight and show you?"
"That's nice," she laughed. "I'm playing tennis tonight."
"I thought you were driving golf balls."
"I drove them already."
"How about after tennis?"
"I'll be sweaty after," Brenda said.
It was not to warn me to clothespin my nose and run in the opposite direction; it was a fact, it apparently didn't bother Brenda, but she wanted it recorded.
"I don't mind," I said, and hoped by my tone to earn a niche somewhere between the squeamish and the grubby. "Can I pick you up?"
She did not answer a minute; I heard her muttering, "Doris Klugman, Doris Klugman..." Then she said, "Yes, Briarpath Hills, eight-fifteen."
"I'll be driving a -" I hung back with the ear, "a tan Plymouth. So you'll know me. How wil I know you?" I said with a sly, awful laugh.
"I'll be sweating," she said and hung up.
Trecho do conto "Goodbye Columbus", de Philip Roth, em que os jovens Neil Klugman e Brenda Patimkn iniciam um inquietante relacionamento guiado pela curiosidade sexual e pelas perdas.
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