7 de julho de 2008
Alessandro Baricco é um escritor bem pragmático. Quando questionado sobre a utilidade da literatura, disparou que é a de fazer escritores felizes. Encontrei o Carlos Rosa, do meiotom e da Dulcinéia Catadora, que, junto com sua esposa Lúcia, vendia os belos livros artesanais do projeto. Fernando Vallejo tentou polemizar ao revelar que nunca leu Machado de Assis, mas foi em vão, o público não se importou (talvez a maioria ali também jamais tenha lido nada do escritor carioca). Contardo Calligaris, com sua elegância habitual, narrou os jantares com Lacan. Ingo Schulze tentava falar alemão com quem lhe pedia autógrafos - às vezes sorria quando conseguia se comunicar em seu idioma. Neil Gaiman, cuja obra desconheço completamente, autografou durante mais de cinco horas. Maitê Proença, agora escritora, atraía tietes para o bar onde bebericava alguma coisa.
6 de julho de 2008
Em Paraty pude ver em ação a Inês Pedrosa, que partilhou a mesa com Cíntia Moscovich e Zoë Heller. Todos gostaram muito da Pedrosa. Uma multidão de fãs esperando pelo autógrafo da portuguesa, mas eu preferi a Zoë. Também a Cíntia estava muito bem. Inês com seu feminismo e sua luta em favor do aborto não convenceu muito. Zoë foi mais honesta com seu pragmatismo. Chegou a dizer que quando aceitou que adaptassem seu livro para o cinema, só pensou no chque e no quanto poderia ficar sossegada para escrever sua ficção. Já Inês deveria falar mais de sua literatura. Zoë é inteligente e certeira. Fala as coisas certas na hora certa e é uma boa escritora. Vi também o Ingo Schulze na mesma mesa que o Modesto Carone. A simpatia do alemão, sua cultura, sua responsabilidade com o ofício, sua literatura surpreendente deixaram o Carone sem ter muito o que dizer. Ainda bem, pois o brasileiro se mostrou um pouco chato com o público. Ao contrário do Contardo Calligaris, um gentleman, muito alegre, simpático e humilde. Seu romance "O conto do amor" estava sendo lançado por lá. Ainda não li, mas o trouxe para casa e se for bom eu devo comentá-lo em breve. Fui para ver também o Alessandro Baricco e não me decepcionei. O escritor italiano mostrou que encara a literatura de maneira bem diferente da dos brasileiros. A mediação do Manuel da Costa Pinto, entretanto, deixou a desejar. A melhor mesa, de longe, foi a do holandês Cees Nooteboom e do colombiano Fernando Vallejo. O Vallejo mostrou que, além de grande escritor, é um indivíduo furioso, prester a explodir por qualquer coisa. Disparou torpedos pesadíssimos contra a igreja católica, contra nosso presidente, contra a literatura de Cees, contra a língua inglesa, contra seu tradutor brasileiro, contra quase tudo que se pode imaginar.
19 de junho de 2008
Están prontas las semillas
Esperando una orden para florecer
Paciencia ya logo crecerán
Y se irán por los senderos de la savia
Por su escalera personal
Un momento de descanso
Antes del viaje al cielo del árbol
El árbol tiene miedo de alejarse demasiado
Tiene miedo y vuelve los ojos angustiados
La noche lo hace temblar
La noche y su licantropía
La noche que afila sus garras en el viento
Y aguza los oídos de la selva
Tiene miedo digo el árbol tiene miedo
De alejarse de la tierra
Trecho do belíssimo "Canto IV", do chileno Vicente Huidobro (1893 - 1948). Do livro "Altazor" (1931).
18 de junho de 2008
A noite ficou cega de nascença para as estrelas nos verem - pensei. E ao raiar, a luz não caía bem aquela hora em Pontal de Orvalho, junto ao rio Eufrates, que se mantinha correndo, por não poder parar, como o tempo. E as letras estão todas na foz com as ervas e o limo. Talita, aos onze anos, fazia seu dever de casa. Desajeitada, distraída, simpática e gentil, com algumas sardas no lado esquerdo do rosto. Por certa displicência e desinteresse no vestir, escutou de sua mãe: - Tens roupas novas e não usas. - Fazia que nem ouvia. Desde cedo gostava de ler e seu mundo era mágico. O que é mágico existe sozinho. Solta-se a palavra e ela se inventa. Nada pode embaciá-la. É como se enfia a cara na lua. Ou na luz. E a luz é tão inocente como o lugar onde troveja. Por ser mágico e inóspito. Inventa-se o que não se conhece. E o que se inventa não carece nem de nome, mas de verdade. Não está só quem se inventa e por isso Talita se achava povoada.
16 de junho de 2008
"já não brinco", e com olhos tão graves
como o pôr-do-sol. E porém não sabia
a língua que dançava entre palato e dente
o que é sério afinal. E os olhos
eram redondos néscios, sequer adivinhavam
que coisa é pôr-se o sol. Preciso era
que viesse uma leve e menor mudança,
qual não haver já língua,
qual não haver já olhos,
para saber que não se brinca mais.
Pedro Tamen, no livro "Guião de Caronte". No Brasil, a editora Escrituras lançou, em 2004, sob o título "Caronte e Memória", que reúne dois livros: o já citado Guião e "Memória Indescritível". Pedro Tamen nasceu em 1934, em Lisboa, e atualmente é administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.
12 de junho de 2008
Ou poderia escrever um pouco sobre o caloroso debate que acabei de assistir, entre Daniel Galera e Santiago Nazarian.
Mas resolvi recorrer a um antigo miniconto que escrevi:
A dor
Alimentei-te com o sumo do meu desgosto: eis como te nutri, criança, com essa ironia cândida e belicosa que sugamos do peito alheio por não termos capacidade de gerá-la para nós próprios. Aí surgem os laços, estreitados ou não no decorrer das necessidades. Olhos e coragem de culpa para confessar-te que sou assassino: do mesmo amálgama com que forjei a tua vida, esculpi a morte, dois lados de um mesmo egoísmo, este pleno senhor de todos os devaneios do espírito e sandices da carne. Daí, do teu trono infante, erija um complexo parlatório de desculpas e, do alto: grite, brade, rogue quantas pragas já tiver aprendido, mas saiba que (nenhum desvio te salvará) não há outro caminho que o da desintegração e o da miséria. És um adubo que o tempo começa a curtir. Prevejo que serás outra presa a sucumbir ao paradoxo: ao mesmo tempo em que tentarás encontrar um significado para a tua geralmente longuíssima e tediosa cruzada, não quererás se render jamais aos achaques do corpo ou à cobiça da morte.
3 de junho de 2008
O impenitente
Quem me consolará no mundo vão?
Homens, tenho convosco a relação da forma.
Nuvem sólida, rosa virginal, água branca
E tu, antiga sinfonia aérea,
Pertenceis ao anjo, não a mim.
Eu digo ao pecado: Tu és meu pai.
Eu digo à podridão: Tu és minha irmã.
A presença real do demônio
É meu pão de vida cotidiano:
Minha alma comprime a aleluia gloriosa.
Hóstias puras,
Inutilmente vos ergueis sobre mim.