16 de junho de 2008
"já não brinco", e com olhos tão graves
como o pôr-do-sol. E porém não sabia
a língua que dançava entre palato e dente
o que é sério afinal. E os olhos
eram redondos néscios, sequer adivinhavam
que coisa é pôr-se o sol. Preciso era
que viesse uma leve e menor mudança,
qual não haver já língua,
qual não haver já olhos,
para saber que não se brinca mais.
Pedro Tamen, no livro "Guião de Caronte". No Brasil, a editora Escrituras lançou, em 2004, sob o título "Caronte e Memória", que reúne dois livros: o já citado Guião e "Memória Indescritível". Pedro Tamen nasceu em 1934, em Lisboa, e atualmente é administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.
12 de junho de 2008
Ou poderia escrever um pouco sobre o caloroso debate que acabei de assistir, entre Daniel Galera e Santiago Nazarian.
Mas resolvi recorrer a um antigo miniconto que escrevi:
A dor
Alimentei-te com o sumo do meu desgosto: eis como te nutri, criança, com essa ironia cândida e belicosa que sugamos do peito alheio por não termos capacidade de gerá-la para nós próprios. Aí surgem os laços, estreitados ou não no decorrer das necessidades. Olhos e coragem de culpa para confessar-te que sou assassino: do mesmo amálgama com que forjei a tua vida, esculpi a morte, dois lados de um mesmo egoísmo, este pleno senhor de todos os devaneios do espírito e sandices da carne. Daí, do teu trono infante, erija um complexo parlatório de desculpas e, do alto: grite, brade, rogue quantas pragas já tiver aprendido, mas saiba que (nenhum desvio te salvará) não há outro caminho que o da desintegração e o da miséria. És um adubo que o tempo começa a curtir. Prevejo que serás outra presa a sucumbir ao paradoxo: ao mesmo tempo em que tentarás encontrar um significado para a tua geralmente longuíssima e tediosa cruzada, não quererás se render jamais aos achaques do corpo ou à cobiça da morte.
3 de junho de 2008
O impenitente
Quem me consolará no mundo vão?
Homens, tenho convosco a relação da forma.
Nuvem sólida, rosa virginal, água branca
E tu, antiga sinfonia aérea,
Pertenceis ao anjo, não a mim.
Eu digo ao pecado: Tu és meu pai.
Eu digo à podridão: Tu és minha irmã.
A presença real do demônio
É meu pão de vida cotidiano:
Minha alma comprime a aleluia gloriosa.
Hóstias puras,
Inutilmente vos ergueis sobre mim.
28 de maio de 2008
We had the experience but missed the meaning,
and approach to the meaning restores the experience.
Além disso, há um trecho interessante, em que Piglia junta, em um único parágrafo, vários mestres:
No fim, eu escrevera um romance com essa história, usando o tom de As palmeiras selvagens, ou melhor: usando os tons que Faulkner adquire quando traduzido por Borges, com o que, sem querer, o relato ficou parecendo uma versão mais ou menos paródica de Onetti.
O trecho eu retirei da edição da Iluminuras, de 1987, em tradução da Heloisa Jahn. Quem quiser conhecer todos os versos do poema "The dry salvages", aqui.
21 de maio de 2008
Trecho do romance "O último leitor", de David Toscana, em tradução de Ana Lúcia Pelegrino e Magali Pedro, para a Casa da Palavra. Edição de 2005.
20 de maio de 2008
6 de maio de 2008
aveva cercato spesso di spiegarle, stava succedendo. Sentì ogni curva sciogliersi gradualmente nell'ordine illogico di un unico gesto, e trovò nella propria mente il cerchio che non esisteva se
non per lei. Nel cuore della velocità, trovò la perfezione di un semplice anello. Pensò allora all'infinito caos di ogni vita, e all'arte sopraffina delle cose che sanno pronunciarlo in un'unica
figura, compiuta. E capì cosa ci commuove nei libri, nello sguardo dei bambini e negli alberi solitari, in mezzo alla campagna. Quando si accorse di essere scesa nel segreto di quel disegno,
chiuse gli occhi, vide gli occhi di Ultimo, sorrise. Poi appoggiò una mano sul braccio del ragazzo che guidava. L'automobile rallentò come se si fosse staccata dall'invisibile forza che fin lì l'aveva trascinata. Percorse sulla spinta ancora due curve, che tornarono, in quella antica lentezza, a sembrare curve. Poi, giunta sul rettilineo, la macchina si fermò.
Continuou rodando, o automóvel, por um tempo que nenhum ponteiro jamais mediu. Elizaveta não contou quantas vezes viu a reta de chegada, mas percebeu que, aos poucos, o que Ultimo muitas vezes procurara lhe exolicar agora estava acontecendo. Sentiu cada curva se desmanchar gradualmente na ordem ilógica de um único gesto e encontrou na própria mente o círculo que só existia para ela. No coração da velocidade, encontrou a perfeição de um simples anel. Pensou, então, no caos infinito de toda vida e na arte requintada das coisas que sabem pronunciá-lo numa única figura, completa. E compreendeu o que nos toca nos livros, no olhar das crianças e nas árvores solitárias, no meio do campo. Quando percebeu que havia descido no segredo daquele desenho, fechou os olhos, viu os olhos de Ultimo, sorriu. Depois, apoiou uma das mãos no braço do rapaz que dirigia. O carro desacelerou como se tivesse se despregado da força invisível que o arrastara até ali. Percorreu no embalo mais duas curvas, que voltaram, naquela antiga vagarosidade, a parecer curvas. Depois, ao chegar à reta, o carro parou.
Trecho de "Questa storia" (Esta história), de Alessandro Baricco. A tradução é de Roberta Barni e foi lançada pela Companhia das Letras. O romance conta a história de Ultimo, um sonhador que se apaixona por carros quando criança e persegue, durante a segunda guerra, o desejo de construir um circuito fechado, para que nele jamais seja disputada nenhuma prova.