27 de janeiro de 2008

Se você não conhece muito a literatura cubana contemporânea, sugiro que procure o escritor Severo Sarduy. Recomendo o livro "Colibri", que retrata as personagens absurdas de um cabaré, que fica próximo ao estuário de um rio, numa zona decadente de Cuba. Logo o autor foca a sua narrativa em Colibri, o famoso dançarino da casa. Lógico que se trata de uma Cuba pré-revolucionária. Também é um olhar distante, já que Sarduy se mudou para Paris aos 23 anos, em 1960, e lá faleceu em 1993.

24 de janeiro de 2008

Se tivesse mais prática na vida literária, saberia que, entre os escritores, o silêncio e a incivilidade em tais circunstâncias denotam a inveja causada por uma bela obra, do mesmo modo que as palavras de admiração demonstram o prazer inspirado por um trabalho medíocre que lhes tranqüiliza o amor-próprio.

Trecho de "As ilusões perdidas", de Honoré de Balzac, em tradução de Ernesto Pelanda.

21 de janeiro de 2008

Enquanto comíamos sanduíches no capô do carro, nosso guia dava instruções de como agir depois que estivéssemos lá dentro. Aconselhou-nos a evitar tocar nas coisas e a não sair do asfalto. A floresta, a água e a terra detinham mais radiação, portanto deveríamos evitá-las. A rigor, o aconselhável era ficar apenas duas horas dentro de Pripyat, mas essa recomendação, segundo Ivan, não era assim tão rigorosa, caso soubéssemos por onde andar e como contabilizar o tempo em relação ao nível de radiação. É preciso explicar ao leitor que, na Zona de Exclusão, a radiação não pairava uniforme, variando radicalmente metro a metro. Por último, entregou um contador geiger a cada um de nós (em Kiev, isso se vende nas farmácias) e ensinou como usar. O nível médio de radiação na Europa, dizia ele, é de 9 microroentgens por hora (mR/hr), enquanto em Kiev, pela proximidade de Chernobyl, era de 20 mR/hr. Ligamos os aparelhos e, no mesmo instante, o medidor marcou 55 mR/hr.

Trecho da interessante crônica de viagem escrita pelo poeta Márcio-André. Aqui.

19 de janeiro de 2008

Vinha cá com o objetivo de deixar um trecho qualquer de Balzac. Adiei a passagem.

Budismo pós-moderno

Ao mestre Augusto dos Anjos

Doutor, pegue esta moto-serra
e corte em mim o que é fera!
Deixe-me apodrecendo numa cela
à espera de um verme por consorte!
Sorte maior é nunca precisar de sorte!

Esta poesia é de Luciano Vilela Teodoro e foi retirada do livro "O devorador de pólen", lançado em 2006, numa edição do autor.

10 de janeiro de 2008

O clip da música The Master of the Alien Werewolves, do interessante projeto de Edgar Franco, Posthuman Tantra, já está disponível no You Tube.

9 de janeiro de 2008

Na subida do morro

O primeiro tiro, na primeira viela da subida do morro, acertou o elemento que corria desesperado, tudo indicando que tinha culpa no cartório.
O responsável pela operação policial explicou que nessa hora tem de atirar mesmo, até porque não dá tempo de perguntar se o suspeito é ou deixa de ser inocente.
Só depois, dias depois, no decorrer das investigações, descobriram que o elemento em questão e já enterrado não passava de um molecote de 14 anos que correu porque se borrava de medo da polícia.
O medo, vocês sabem, traz o desespero e faz a gente correr mesmo. E que o moleque, soube-se depois também, era doente mental e acordava gritando no meio da noite "são eles, mãe, são eles e vão nos matar". Também puxava de uma perna, o safadinho, o que aumentava mais ainda a aflição na hora da correria.
Mas aí, disse o sargento responsável pela operação, já era tarde.

Conto de Luís Pimentel, retirado do livro "Um cometa cravado em tua coxa". Pimentel é autor de mais de dezena de livros, entre infantis, contos, poesia. Foi editor do Jornal do Brasil, entre vários outros jornais do país.

30 de dezembro de 2007

Poema

Porque parece a tez do oceano
o pano da tarde estende caravelas
no fundo do poema
como se nascessem ali
onde o mundo termina.

Porque nasce no que se ausenta
o oceano se perde
no fundo do verso
como se morresse ali
onde o tempo se esvai.

Porque não se percebe
a palavra se contém
no fundo da boca
como se fosse ali
onde a alma se exclui.

Álvaro Alves de Faria, no livro "Sete anos de pastor", lançado pela editora Palimage, de Portugal.